A MONTANHA RUSSA DO VIAJANTE.

1 mês antes de partir; Eufórico, o futuro imigrante lê tudo sobre a cultura onde pretende se inserir e planeja uma vida nova.

1 semana antes de partir; A proximidade da viagem gera os primeiros medos de que tudo dê errado.

1ª semana no exterior; Deslumbrado, o imigrante passa a considerar que o novo país é um paraíso.

1º mês no exterior; Solidão, choque cultural, falta de domínio do idioma e diferença de temperatura começam a aborrecer o aventureiro, que passa a ter saudades de casa.

3º mês no exterior; A língua ainda pode seu um agravante, mas as facilidades do novo país parecem valer a pena.

6º mês no exterior; Completamente adaptado, o imigrante lida bem com a saudade de casa e com as dificuldades em morar fora.

1 semana antes de voltar para casa; Esse é o pico da saudade da família, quando o viajante começa a combinar encontros com amigos e a fazer as mala.

1ª semana em casa; Tratado como visita ilustre, o bom filho ainda não teve tempo para avaliar o que perdeu com o retorno.

1º mês em casa; Fase áurea da nostalgia, quando a vivência no exterior parece ter sido um sonho para o qual a pessoa espera voltar o mais rápido possível.

2º mês em casa; Ninguém aguenta mais ouvir histórias sobre sua viagem. Os amigos passam a achá-lo esnobe e deslumbrado.

3º mês em casa; Nesse ponto, a maior parte das pessoas volta a ter vida normal, com atividades como trabalho estudo. A readaptação completa, no entanto, só acontece depois de dois anos de retorno.

De volta ao país, brasileiros sofrem ‘síndrome do regresso’

A crise dos países desenvolvidos está levando muitos brasileiros a fazerem as malas de volta para casa. Segundo o Itamaraty, 20% dos que moravam nos EUA e um quarto dos que moravam no Japão já retornaram desde o começo da recessão, em 2008.

“Foi um choque voltar ao interior”, conta gerente de salão de beleza.

Nostalgia e decepção com o país levam à depressão do regresso

O relatório de 2011 sobre a população expatriada sai no fim deste mês, e a taxa de retorno deve ser ainda maior. Há tanta gente comprando a passagem de volta e tanta dificuldade de reintegração ao mercado de trabalho brasileiro que o Itamaraty lançou o “Guia de Retorno ao Brasil”, distribuído nas embaixadas.

O caminho de volta pode gerar depressão. É a “síndrome do regresso”, termo cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa para designar certo “jet lag espiritual” que aflige ex-imigrantes.

Nakagawa estudava a frustração de brasileiros que voltavam ao país após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas.

“A adaptação em um país diferente acontece em seis meses, já a readaptação ao país de origem demora dois anos”, diz a psicóloga Kyoko Nakagawa, viúva do psiquiatra e coordenadora do projeto Kaeru, de reintegração de crianças que voltam do Japão.

BONDE ANDANDO

Se ao sair do país o imigrante se cerca de cuidados para amenizar o choque cultural, no retorno a ilusão é de que basta descer do avião para se sentir em casa.

“Retornar é uma nova imigração”, diz a psicoterapeuta Sylvia Dantas, coordenadora do projeto de Orientação Intercultural da Unifesp. “A sensação é de que perdemos o bonde, estamos por fora do que deveríamos conhecer como a palma da mão.”

Quando voltou do segundo intercâmbio no Canadá, o gerente de marketing Rafael Marques, 33, descobriu que havia ficado para tio: “Todos os meus amigos estavam casados, com outras prioridades. Demorei meses para me situar”. Resultado: deprimiu. Recuperado, hoje ele trabalha com intercâmbios.

Para amenizar o estranhamento, a analista de marketing Natasha Pinassi, 34, se refugiou nos amigos feitos durante sua vivência de um ano na Austrália: “Em pouco tempo no Brasil percebi que deveria ter feito minha vida na Austrália. Já não via graça nas pessoas e nos lugares que frequentava antes. Só conversava com brasileiros que conheci no exterior”.

A família pouco ajudava: “Não pude falar o que sentia. Eu me culpava por estar sofrendo enquanto meus pais estavam felizes com minha volta”, diz Natasha, que tomou antidepressivos para tentar sair desse estado.

A síndrome não é exclusividade dos brasileiros. “Em minhas pesquisas com imigrantes, percebi um sentimento geral de que o país deixado não é o mesmo na volta”, diz Caroline Freitas, professora de antropologia da Faculdade Santa Marcelina. “Um português me disse não querer voltar por saber que Portugal já não estaria lá.”

ABANDONO

Quem sofre de síndrome do regresso é frequentemente considerado esnobe. Parentes e amigos têm pouca paciência com quem volta reclamando: “O retorno tem uma significação para aquele que ficou. Junto com saudade, há um sentimento inconsciente de abandono, ressentimento e de inveja daquele que se aventurou”, explica Dantas.

Para Nakagawa, amigos costumam simplificar o processo de reintegração: “Há uma pressão para que a pessoa ‘se divirta’. Na melhor das intenções, os amigos não respeitam o tempo do viajante”.

Se a família também não ajudar, o ideal é procurar um psicólogo com formação intercultural. Em São Paulo, o núcleo intercultural da Unifesp dá orientação gratuita.

AMANDA LOURENÇO

JULIANA CUNHA

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

#

Advertisements